É recorrente, demasiado, dizem os médicos, acordar a meio da noite e não conseguir voltar a adormecer. O processo arrasta-se durante uma hora ou mais mas entretanto compreendi que podia tirar partido desse tempo e conhecer-me enquanto o sono não voltava.
Em posição fetal, ou fatal, para mim, descobri a aflição de sentir cada centímetro cúbico da minha cabeça a doer. A vontade foi de a prender no meio dos joelhos e pressionar, pressionar, até que os meus olhos dependurassem da borda da cama. Resolvi não o fazer. A minha ambição por ter novas visões do mundo não é assim tão grande.
Tentei depois a posição que ajuda o espírito a empreender uma viagem astral. Já eu ia na rua de cima quando senti o meu nariz a escorrer água. Perdi a concentração, que com tanto esforço tinha conseguido, ao ver-me obrigada a acabar com o irritante gotear. Tratei do assusto com a manga do pijama. Descobri, então, que a minha anca está tão saliente e, aparentemente, frágil que podia ser confundida com a ponta de uma lança pré-histórica.
Acabei por adormecer, algures nesta arqueologia às escuras, a boca no ansaime que me impede de comer os meus próprios dedos durante a noite e, eventualmente, de me engasgar com eles. É bonito, o ansaime, de couro castanho e com umas fivelas lindas na nuca.

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