De há nove meses a esta parte que padeço de uma afecção gravíssima: estou viva.
Derrotada pela minha própria incompetência, vou deambulando, com mais ou menos sucesso, dependendo das companhias, entre a cama e o pouco do mundo real que conheço. Observo, com um encolher de ombros estoicamente desinteressado, que se me lascam os dedos de uma tentativa de me entregar a algo de que penso que já desisti. Observo como eu própria me subtraio de mim mesma, com aquela falta de jeito de quem nunca soube fazer contas de cabeça.
Perco-me.
Sou cada vez menos eu.
Encontro-me cada vez com menos frequência nas minhas fotografias, nos meus sorrisos e posturas. Não que pareçam gastos. São apenas mais pesados, desinteressantes. Desprovidos de qualquer tipo de serenidade, ainda que teatralizada.
Entretanto, parece-me que, até hoje, me tinha recusado a acreditar naquilo que para mim roçava a melhor mitologia urbana dos anos '90. Mas, ao que parece, existem rádios suficientemente maléficos para me comerem, com sofreguidão inaudita, a minha cassete predilecta. Acabou-se o piano de parede dorido. Quase derramei uma lágrima bem sentida quando tive aquele cadáver de música, com as tripinhas pretas cá fora, enrolado na mão.
Ainda assim, parece que cassetes mortas são, actualmente, o meu problema mais grave.
6 de janeiro de 2009
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